Outro dia, precisei ir às compras e, passando por uma esquina, senti um cheiro de pão sendo fabricado. Meus sentidos se voltaram pra uma época em que, na mais tenra adolescência, costumava ir à padaria comprar pão. Eu era a mais disponível, ou melhor, a mais bem mandada. Sempre tive a idéia de que obedecer aos pais era mera obrigação. Minhas irmãs, a mais velha, casara precocemente e já cuidava do seu rebento; a segunda, muito brava, não gostava de sair, a não ser para a casa de sua amiga preferida, onde passava horas. Eu era a terceira dos cinco filhos. Os mais novos não deviam saber comprar coisas ainda. Então, já viram que a mim cabiam essas obrigações. Me lembro, havia caderneta para tudo: mercado, padaria, açougue. Não existiam cartões de crédito como hoje. E lá ia eu, comprar pão todas as manhãs. Mas o que quero dizer é que nada me dá a sensação tão intensa de voltar ao passado, como quando sinto o cheiro de pão fresco, quentinho, saindo das fornadas. Me vejo também comprando verduras na "quitanda" da Penha. Nem sabia diferenciar o que era alface ou almeirão. Apenas dizia para a dona da loja, onde os cheiros de verduras, frutas e legumes se misturavam e eu levava pra casa o que me diziam pra comprar e ia carregando as verduras, embrulhadas em folhas de jornal. Gente, isso é mais que voltar nostalgicamente ao passado. Não venham me recriminar. Sou saudosista, sim, até porque, tanto a cidade pequena e calma, quanto a vida sem violência, quando uma menininha como eu podia, sem o menor perigo, ir às compras, era normal.Quando a palavra dada era um documento e como me sentia feliz, escolhendo o pão mais clarinho que eu acabara de comprar, na padaria do Teco, o melhor pão da cidade.As crianças e adolescentes de hoje, são monitoradas por celulares, tablets, e outros que tais. São levadas e trazidas pra lá e pra cá em completa vigilância. Outro dia mesmo, estava na casa de minha sobrinha e a filha dela, já nos seus dezessete anos, telefonou para que a mãe a fosse buscar - estava na casa de uma amiga- e a mãe não consentiu que ela pegasse um ônibus de volta pra casa.Pegou o carro e saiu apressada, indo buscá-la. Santo Deus! Que tempos são esses!!! Em plena luz do dia, não se pode andar com segurança e o que vemos são pessoas tensas, ansiosas, até que vejam os filhos em casa, protegidos e dando graças por mais um dia. Aí, sinto o cheiro de liberdade, sinto que fui premiada com uma infância saudável, onde meus passos não eram teleguiados e vivíamos mais alegremente, apesar de não haver a tecnologia avançada de hoje...!
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