PRISIONEIRA DO CORPO.
Nem sei se alguém
ficará sabendo sobre o que escrevo agora. Há sempre conselhos ou até mesmo um
ar de recriminação se escrevo coisas
tristes, em forma de lamento. Desabafo. Isto, sim. Mas é tão intenso e íntimo
que acho precisaria usar um confessionário. Que não fosse repreendida, que não
fosse cobrada. Na igreja, costumo observar, na hora da Comunhão, as pessoas
recebendo Cristo, na hóstia, o conforto de Deus e sendo, de certa forma, recompensadas, acalentadas. Sinto enorme
frustração em não poder receber aquela fatia mínima de pão, que representa
Jesus. Há normas e preceitos que devemos seguir. Sou separada do meu marido faz
muito tempo. A Igreja não aceita. Jesus perdoou as pessoas e com elas conviveu,
apesar de suas falhas. É hora de dizer coisas pra mim
mesma. É hora de perceber que ninguém pode ajudar. É hora do desalento
total. Ando preocupada, as palavras não
estão se ajustando ao sentimento que quero expressar. Usei preocupada. Não é só
isso. Pensei em verdadeiro pânico o que me acomete por vezes. A alma, espírito ou seja lá o que for que rege nossas atitudes,
nos incita a viver dessa ou daquela maneira; é mistério para todos. É preciso
ter fé para imaginar uma vida melhor após a morte. É preciso acreditar em
alguma coisa que nos mova para sermos
bons seres humanos. Ontem, ouvia um autor famoso, não me lembro o nome, numa entrevista pela TV, era
sobre um filme que ele orquestrara sobre
religiões, logo ele, um ateu convicto. Dizia que, talvez por isso, pelas
cobranças que recebia, tinha se motivado a investigar cada uma das religiões e
como num documentário, mostrava as facetas de algumas delas que, no fundo, em
algum ponto, tinham se alinhavado, convergindo para os mesmos dogmas. Independente
de ser religioso, afirmava ser correto e se conduzia de modo digno. Eu me
aproximo de idade avançada. Há pessoas morrendo e que foram meus
contemporâneos, até mais novos que eu. Tenho medo de ficar doente, sim. De
morrer, menos. Já fui mais apegada à vida na Terra. Se outra há, deveria ser
uma compensação para todos. Ando me
sentindo tão fragilizada que me espanto por ter chegado a esse estado de
espírito caótico. Tento de todas as formas me
reerguer e olhar a vida por outro
ângulo. Não consigo. Mostras de cansaço. Os ossos, músculos e todas as partes
do corpo andam fracos. Talvez, seja a mente, essa traidora que, volta e meia,
nos dá rasteiras. Invejo as pessoas que lutam bravamente e dão uma banana pra
idade. Vivem a plenitude e vigor de cada fase. Eu, não. Fui uma pessoa que
adiou a vida. O sentimento era de esperança e os problemas eu achava que o
tempo traria a solução. Enganei-me. Sinto-me prisioneira do meu corpo. Ele não
acompanha os meus desejos e mal intencionado me confunde e infunde um grande
medo de ficar doente. Não quero visualizar momentos sobre um leito, em casa ou num
hospital, não importa. Tive uma experiência estranha faz poucos meses e ainda
não me sinto confiante. Tomo remédios que me deixam menos ansiosa. Em
contrapartida, me derrubam. São os famosos efeitos colaterais. O que antes me alegrava e impulsionava, perdeu
a graça.
Nenhum comentário:
Postar um comentário