segunda-feira, 23 de março de 2015

PRISIONEIRA DO CORPO

PRISIONEIRA DO CORPO.

              Nem sei se alguém ficará sabendo sobre o que escrevo agora. Há sempre conselhos ou até mesmo um ar de  recriminação se escrevo coisas tristes, em forma de lamento. Desabafo. Isto, sim. Mas é tão intenso e íntimo que acho precisaria usar um confessionário. Que não fosse repreendida, que não fosse cobrada. Na igreja, costumo observar, na hora da Comunhão, as pessoas recebendo Cristo, na hóstia, o conforto de Deus e sendo, de certa forma,  recompensadas, acalentadas. Sinto enorme frustração em não poder receber aquela fatia mínima de pão, que representa Jesus. Há normas e preceitos que devemos seguir. Sou separada do meu marido faz muito tempo. A Igreja não aceita. Jesus perdoou as pessoas e com elas conviveu, apesar de suas falhas. É hora de dizer coisas pra  mim  mesma. É hora de perceber que ninguém pode ajudar. É hora do desalento total. Ando preocupada, as  palavras não estão se ajustando ao sentimento que quero expressar. Usei preocupada. Não é só isso. Pensei em verdadeiro pânico o que me acomete por vezes. A alma, espírito  ou seja lá o que for que rege nossas atitudes, nos incita a viver dessa ou daquela maneira; é mistério para todos. É preciso ter fé para imaginar uma vida melhor após a morte. É preciso acreditar em alguma  coisa que nos mova para sermos bons seres humanos. Ontem, ouvia um autor famoso, não me  lembro o nome, numa entrevista pela TV, era sobre um filme que ele orquestrara  sobre religiões, logo ele, um ateu convicto. Dizia que, talvez por isso, pelas cobranças que recebia, tinha se motivado a investigar cada uma das religiões e como num documentário, mostrava as facetas de algumas delas que, no fundo, em algum ponto, tinham se alinhavado, convergindo para os mesmos dogmas. Independente de ser religioso, afirmava ser correto e se conduzia de modo digno. Eu me aproximo de idade avançada. Há pessoas morrendo e que foram meus contemporâneos, até mais novos que eu. Tenho medo de ficar doente, sim. De morrer, menos. Já fui mais apegada à vida na Terra. Se outra há, deveria ser uma  compensação para todos. Ando me sentindo tão fragilizada que me espanto por ter chegado a esse estado de espírito caótico. Tento de todas as formas me  reerguer  e olhar a vida por outro ângulo. Não consigo. Mostras de cansaço. Os ossos, músculos e todas as partes do corpo andam fracos. Talvez, seja a mente, essa traidora que, volta e meia, nos dá rasteiras. Invejo as pessoas que lutam bravamente e dão uma banana pra idade. Vivem a plenitude e vigor de cada fase. Eu, não. Fui uma pessoa que adiou a vida. O sentimento era de esperança e os problemas eu achava que o tempo traria a solução. Enganei-me. Sinto-me prisioneira do meu corpo. Ele não acompanha os meus desejos e mal intencionado me confunde e infunde um grande medo de ficar doente. Não quero visualizar momentos sobre um leito, em casa ou num hospital, não importa. Tive uma experiência estranha faz poucos meses e ainda não me sinto confiante. Tomo remédios que me deixam menos ansiosa. Em contrapartida, me derrubam. São os famosos efeitos colaterais.  O que antes me alegrava e impulsionava, perdeu a graça. 

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