terça-feira, 3 de maio de 2016

Sangria

Ontem, vi numa novela da TV uma cena chocante: nos tempos do Tiradentes, uma mulher, tida como bruxa, fez uma "transfusão de sangue",  de uma jovem para uma mulher à  beira da morte; o sangue do braço, que escorria para um vidro, fora cortado pela faca afiada da megera, pretensa curandeira. Não sei nada de medicina, claro, mas já ouvi falar em sangria, que é mais ou menos o que acabei de descrever. Alguns médicos se utilizavam, acho, num tempo atrás, para salvar vidas. Não acredito que sejam utilizadas técnicas como essa, atualmente. O fato é que, às vezes, é como se precisássemos  usar essa técnica para salvar a alma. Purificar ou desobstruir artérias e deixar o sangue fluir livremente. A intenção seria esta quando se fala do físico, do corpo de carne e osso. Mas a alma, como se faria para limpá-la, livrá-la da angústia, da ansiedade? Há muitos caminhos, segundo a Psicologia ou a Psiquiatria. Terapia, remédios, homeopatia.Além da religião, orações. Não sei o quê mais. A idade nos alcança e nos dá rasteiras. Olho para o lado e vejo muitas pessoas como eu. Há mais gente idosa que outra coisa, em todos os lugares. A medicina evoluiu e nos acrescentou muitos anos mais. A média de vida aumentou e muito. O comportamento, é claro, acompanhou essas mudanças todas. Antigamente, uma senhora nos seus cinquenta ou mais, era considerada velha, cheia de afazeres leves, tricô e crochê, fazendo sapatinhos para os netos, roupas comportadas, sem cores berrantes, como seria de bom tom.Hoje, a velharada sai para os bares, para as ruas, para o teatro, cinema, faz ginástica. Tudo isso e muito mais. Há aquelas que, inconformadas com a aparência senil, recorrem a plásticas e ao famoso botox. Não as recrimino, apenas é a constatação do que acontece. Mas aí, tem aquela senhora que não perdoa. Faz de nós prisioneiros do seu destempero.Não quer ser enganada porque o corpo não corresponde aos anseios da alma. E sobrecarregada, dá mostras de cansaço. Há os que lutam bravamente e vencem alguns turnos desta guerra. Como seria bom que, como os curandeiros e doutores de eras passadas, se pudesse fazer uma sangria neste espírito embolorado, que precisa se refazer, desobstruindo todo o entulho que o viver lhe impôs.Alargar as veias da alma para que se torne mais fácil, suportável, diante das agruras da vida, aliviando o peso desta cruz que  carregamos.

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