domingo, 29 de novembro de 2015
Medo,irmandade...e susto.
Entremeada de alegrias e tristezas assim é a vida. Novidade nenhuma. Mas, às vezes, há momentos em que se misturam coisas, independentes de nossa vontade e compreensão. Volto no tempo, para contar um fato onde a tônica era a tristeza, sem clima para coisas engraçadas, já que naquele dia, acabávamos de enterrar uma tia muito querida, que nos deixava tão precocemente. Eu viajara de Volta Redonda, onde morava,acompanhada do filho mais velho, adolescente ainda,levados por um chofer, contratado pelo meu marido. Viagem longa, com uma finalidade desagradável, ver pela última vez, pessoa tão querida, minha madrinha, além de tia.Depois que voltamos do cemitério, fomos todos para a casa da irmã mais velha, Teresa, que nos acolheu com uma farta refeição e cercou-nos com todo o conforto de que se precisava na ocasião. Vânia, como todos nós que tivemos de viajar pelas longas estradas, resolveu tomar um banho para descansar sua tristeza e aliviar a perda. Relembrando hoje, ela me dizia que, enquanto se banhava, pensava em quantas coisas aquela tia alegre, jovem ainda e que partira cedo demais, gostaria de ter dito e não disse. Era uma mulher especial, muito amada pela família e pelos numerosos amigos que amealhara vida afora. Na sala, em forma de L encontrávamos eu e Pitota, sentados bem em frente à porta do banheiro, num pequeno sofá. Do outro lado, onde o cômodo se alargava mais, o chofer que nos conduzira, minha irmã, e mais outras pessoas da família que não me lembro agora.Ouvia-se o barulho da água do chuveiro. De repente, um grito. A porta do banheiro abriu-se, repentinamente; minha irmã, completamente nua, corria, em nossa direção,água escorrendo pelo corpo , olhando-nos ainda mais confusa e espantada. Levantei-me o mais rápido que pude e fui em sua direção, mesmo sem entender o que acontecia. Queria cobrir sua nudez com o meu corpo. O que teria acontecido para aquela exposição incrível, logo ela tão cheia de pudores? Teria se sentido mal, não entendia mesmo. A sala cheia de gente e ela completamente desorientada, com o medo estampado na face. Depois do susto inicial, e devidamente coberta, minha irmã explicou o que a deixara apavorada. Ouviu pela vidraça do banheiro um barulho sinistro, como se alguém arranhasse a janela. Chegou a pensar que seria uma brincadeira do cunhado brincalhão, que gostava de aprontar esse tipo de coisa, mas, ao avistá-lo bem em frente à porta do banheiro, não teve dúvidas, só podia ser mesmo alguma assombração. O terror foi mais forte que o pudor... Depois, meu filho adolescente, voltando do quintal, glorioso,ria a valer, afinal o susto que pregara na coitada da tia tinha surtido o efeito desejado. Coisa de adolescente... Hoje, ela se lembrava também de que apesar de serem " cordiais inimigas " quando menininhas, costumavam dormir abraçadas, ela e Teresa, quando morria algum conhecido, algum parente. Lembrou-se de quando a madrinha Alzira, uma negra muito querida por toda a família e que ajudara a cuidar das crianças da casa partia desse mundo de Deus. Suavam em bicas, mas se escudavam da morte e do medo incontrolável, abraçadas, uma protegendo a outra.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário