Já é tempo de forçar o corpo e só assim realizar qualquer coisa. Não precisa ser de grande utilidade, nem importante. Apenas começar. Ou recomeçar, melhor dizendo. Aí é que a porca torce o rabo, diria o povo. Não sei ao certo o que isto quer dizer mas deve ser tarefa complicada. Assuntos pipocam nas telas da TV. Não só ali, mas nos outros aparelhinhos menores, informações correm à larga. Monstros camuflados de gente, matando por uma causa que inexiste. Apenas fanatismo. Não há ódio latente, o que acontece é a tragédia humana, tão eloquente que nos foge à compreensão. Não depende do esforço que faço, nem de inspiração falar sobre a vida; é tão inócuo quanto chupar uma pedra de gelo. Porque cheguei à conclusão de que não há regras e ninguém sabe nada de nada.Queria ser assim, fria, dura. Queria não me importar com os seres que me são caros. Não consigo. Queria me distrair e me conduzir por estradas nunca antes percorridas. Não sei fazer assim. Não quero fazer assim. Devo fazer assim, dizem. "Navegar é preciso".Cada um de nós tem uma genética ou sei lá o quê, quando nos referimos às características, personalidade, amor ou desamor, enfim, a tudo de que é composto um ser que, como eu, dizem ser humano. Qual seria a definição correta para essa palavra? Há uma classificação numérica ou genérica para a distinção entre pessoas? Sei não. Há os que erram. A culpa é da sociedade, a culpa é da falta de oportunidades, a culpa é sempre de alguém, do governo ( este, na maioria das vezes, inegavelmente, concorre para fracassos) mas quais sejam os motivos, não saberemos medir a capacidade ou dificuldades de cada um.
Outro dia, apesar das dores do corpo e insegurança para sair, armei-me de coragem e parti para a rua. Precisava de algum dinheiro no bolso. Tomei um táxi, já avisando que o percurso seria curto. Vi pessoas caminhando, sentindo o barulho e intenso calor das ruas. Desci diante da porta fechada do banco mas me adiantei e troquei uma quantia. Iria ao cinema ali perto. Cheguei com cinco minutos de antecedência mas a tela já se enchia de cores. Achei minha irmã bem onde ela disse que estaria. O filme começou logo. A história real de uma escritora solitária e sofrida. Deprimente mesmo. Interessante contudo. Identifiquei-me em alguns pontos com aquela vida, aquela história. Não há, na verdade, roteiro nenhum. Vamos vivendo apenas. Em cada esquina uma observação ou uma surpresa.
Minha recuperação está acontecendo. Há momentos de extrema fraqueza e desalento. Não há modelo a seguir, volto a dizer. Na saída do cinema, minha irmã falou com uma concertista ( toca harpa) e falavam as duas sobre viagens, sobre Paris, lugares que ambas conheceram, enfim, enfatizavam o poder curador de uma boa viagem, de se fazer atividades culturais, essas coisas. Concordo em gênero, número e grau. Só que alguns empecilhos atravancam minha saída. Dinheiro? Não o mais importante, para isso dá-se um jeito. Então, o quê? Não vou revelar assim, de bandeja. Darei uma dica. Tenho plantados no meio do peito algumas sementes, são três. Talvez, sejam as pequenas raízes que carrego o que me prende tão fortemente ao solo. É preciso regá-las com muito amor. A presença delas me faz viver. Apesar das pragas do caminho, vou tentando protege-las. Missão difícil, custosa. Por isso, visualizo um iceberg à deriva, uma pedra de gelo que não tem direção certa, que se conduz ao sabor dos ventos ou mesmo se aquieta na calmaria momentânea dos mares. Queria ser fria, queria ser dura, sem cor, sem viço: um iceberg.
Um comentário:
Mãe você precisa sim viajar, conhecer novos lugares. Sair mais passear e não ficar só em casa. Sei que talvez você não queira agora. Eu por exemplo adoro sair, viajar, passear! Praia, lugares históricos, Serra e por aí vai. A vida é bela ! Os problemas todos nós temos. Faz parte da vida. Que é um eterno aprendizado.
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