Desde menininha, imaginava que se eu tivesse uma piscina em casa seria o auge do conforto, seria ter status, seria uma pessoa privilegiada, chique, como as artista de cinema. Esther Willians. A minha geração acompanhou seus musicais, dentro de piscinas maravilhosas, acrobacias mágicas. Fiquei pensando nisso outro dia. Isso porque estava tentando me refrescar na piscina pequena do meu edifício. Não achava mais prazer. Queria apenas me aliviar do calor infernal.Aí, me vieram essas idéias. Pra começar, estavam lá também dois garotos. A mãe de um deles, mulher bonita, jovem ainda, queimada de sol. Eu não estava a fim de papo. Já disse, só queria me refrescar. Arrastei uma cadeira para a sombra e me sentei; enfrentar o sol... nem pensar, fico um "camarão" pois sou branca, muito branca. Dei um meio sorriso para a moça bronzeada, de pura cortesia. Abri o chuveiro do lava-pés e gostei da água fria escorrendo no meu corpo suado. Desci os degraus e me enfiei na água, já prevendo a sensação gostosa que teria. Mas não. Um dos meninos, nos seus dez anos, logo me identificou: -" Você vai ser o juiz!" Declarou ele, sem nenhuma cerimônia e sem esperar recusas. Eu, como bem -educada que sou, concordei. Tudo bem, disse eu. Um, dois, três e já! E lá foram os dois se enfrentando para ver quem chegava primeiro. Meu momento de lazer arruinado. Ainda mantive um papo amigável com a mãe do guri mais novo. Por que faço isso? Volto a dizer: pura cortesia. Nem é preciso dizer que não consegui me aliviar, nadar sossegada, tentar mergulhar sem tapar o nariz. Imaginei que estaria só, pesquisei com o porteiro e, segundo ele, não havia ninguém na piscina. Fiquei algum tempo ainda. Deu para refrescar, sim; cabelos molhados, corpo mais frio, resolvi voltar para o santo recesso do meu lar. Foi aí que dei a pensar: me lembrei de quando menina, na fazenda onde morei até meus dez anos, ficava sonhando com uma piscina daquelas que às vezes costumava ver no cinema. Morei em casas boas com belas piscinas. Nenhuma delas me deu a alegria que imaginava ter como as imaginárias, dos sonhos de criança. A vida nos dá coisas, sim. Mas num tempo que não é o nosso. É arbitrária. O tempo também é. Não percebe que os nossos desejos são confinados e nem sempre acompanham o ritmo dos sonhos hollywoodyanos de uma menininha sonhadora.
9 comentários:
Lindo! Muito bom.
Que texto lindo, Neuza.
Um monólogo com sua memória. Com você mesma, enquanto passado, e com seus sonhos infantis. O propósito do banho de piscina era o de se refrescar e somente isso. Assim, esse objetivo é apresentado ao leitor de tal maneira que ficamos curiosos pelo que poderá acontecer. Início do prazer do texto, segundo Barthes. A ação de banhar-se poderia acontecer de várias maneiras: engraçada, talvez; embaraçosa, possivelmente e até pedagógica. Mas não, Neuza nos vai apresentando sua preocupação em não conseguir o objetivo principal, através de reminiscências trazidas lá de seu passado, lá da sua memória que registrou com segurança sua predileção pelos filmes encantadores de Hollywoody, quando, por exemplo, nunca mais ficou perdida em suas recordações, por exemplo, a magnífica “Escola de Sereias”, um registro concreto de um ideal, um símbolo quase fetichista. O texto nos traz à cena tudo isso, por meio de um memorialismo sentido, mas escamoteado, que se deixa escorrer pelas águas das muitas reais piscinas que já possuiu ao longo de sua vida, mas nunca encontrando nelas, quando de seus banhos e mergulhos, reais ou fantasiosos, a felicidade, sempre perseguida em suas águas azuis e calmas. Tempo esse que, por aprisionar seus desejos, são melancólicos, como os sonhos de qualquer menina sonhadora. Ass. Luiz Cesar Saraiva Feijó
OI Neuza! Que bom que continua escrevendo e muito bem! Adorei o texto.
É realmente a vida é imprevisível. Nos traz experiências muito interessantes e precisamos analisar os sinais que emitem. Como você se sentiu no lugar de juiz?
Já conseguiu se responder por que é cortes quando não quer? Fantasia é muito legal, mas as vezes pode nos impedir de saborear mais a realidade. Abração
Luiz César. Fiquei maravilhada com seu comentário. Sempre considerei você um homem culto, sensível. Fiquei orgulhosa! Obrigada também porque, acho, captou de maneira incrível meus sentimentos...Um grande abraço.
Complicado tomar banho de piscina com pessoas desconhecidas. Sempre existe alguém incomodando. Mas vale a pena devido ao calor que tem feito. Imagine mãe você Juiza. rs seria muito interessante. Você como inteligente que é, deveria fazer uma faculdade. De algum assunto que goste.
Estive relendo seu comentário, Fátima. Você sempre me põe a pensar. Faço cortesia, quando a vontade é justamente o contrário! Freud explica, né? Fico feliz que tenha gostado. Bj. Neuza
Que bom que leu e gostou, Roberto. Um grande abraço.
Que texto bárbaro, parece extraído de um livro que acaba precocemente, deixando um gostinho de quero mais! Já pensou nisso? Adoraria ler um livro seu!
Mônica, querida, seu comentário me enche de orgulho. Vindo de uma pessoa culta, inteligente como você é um grande estímulo. bjs.
Postar um comentário