segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Vaidade

 A idade chega. Dá uma certa aversão ao espelho que não tem culpa de nada. As rugas aparecendo, destruidoras da pele e da autoestima. Por que não nos conformamos em aceitar que a velhice se instalou? A lembrança de um rosto bonito, liso e jovem, ao ver retratos,  inevitável a comparação. Mas a luta continua, pelo menos, para uma saúde melhor. O arsenal de cremes e receitas "salvadoras" estão à mão. E daí, perseguimos o sol, pela manhã, no horário que fixa a vitamina D. Caminhamos, nos exercitamos da melhor forma. Subir a escadinha de quatro degraus, proibitivo. Vai que numa queda quebramos algum osso precioso! E as limitações crescem. Outro dia, semana passada, resolvi ir ao armarinho, no Centro da cidade, onde há possibilidade de encontrar linhas e tudo para o meu crochê. Não me envergonho de dizer que faço todos os dias, o que considero terapia e não, coisa de velha. É muito bom. Então, voltando, precisava comprar material para meus trabalhos. O calor estava assustador. Em torno de 44 graus, com sensação térmica de 50. Meus filhos aconselhavam a ficar quieta em casa. " Você é idosa, mãe! Não vai!" Mas, teimosa que sou, fui. Peguei carona com o outro filho. Já dentro do carro, senti enorme arrependimento. Pensei voltar. Mas segui. " Você tá muito medrosa e maluca". Dizia pra mim mesma. Consegui chegar à loja e comprei tudo o que precisava. Voltei com uma bolsa cheia ( não muito pesada) e me senti feliz por ter sido corajosa. Mas a cada passo, pensava na aventura arriscada. Cheguei ao estacionamento e encontrei o carro do filho. Cheguei em casa a reboque, confesso... Mas comecei com o título "Vaidade". E falo disso também. Andava por uma calçada, perto de casa. Era para aproveitar o sol e me certificar de que a vitamina D estaria sendo armazenada. Avistei à minha frente, um senhor que caminhava em direção contrária. Devia ser mais velho que eu. Vestia uma camisa de mangas, calça comprida, cabelos brancos, bem brancos. Então achei que ele me admirava. Pensei nas pernas, que ainda estão em forma. Eu vestia bermudas, usava máscara, claro. Ele só podia ver meus olhos , os cabelos e reparar no meu andar. Pensei assim. E fiquei toda prosa, me "achando". Afinal, a máscara servia para alguma coisa, além de proteger contra o vírus, podia  disfarçar, meu rosto, as bochechas um tanto caídas. Segui animada. Não aconteceu nada demais. Apenas me senti apreciada. O pobre homem nem deve ter me notado. Nunca saberei. Mas a vaidade me fez imaginar um suposto olhar do sexo oposto. Coisa de velha...devo voltar aos trabalhos de crochê, que, de fato, me dão prazer e são reais! 




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