Ainda menina, olhava pela janela e meus sonhos percorriam aqueles morros. Era uma sensação de não estar no lugar certo. Uma tristeza invadia a alma daquela criança? Talvez. Nunca gostei muito de morar em uma fazenda. Parecia que, por trás daqueles montes, havia algo me esperando. Era meio assim. Agora, tenho a noção e medida. Tenho nas duas irmãs mais velhas a certeza de que elas amam o interior, uma roça. Que diferença, meu Deus! Sinto-me deprimida só de pensar em estar num lugar ermo e distante da cidade. Sei lá porque. Da mesma família, com os mesmos costumes e educação e tão diferentes! Vejo-me escorada no peitoril da janela, pintada de vermelho, com taramelas de fecho. Meu olhar passeava por aquelas imagens: eram pequenos morros, cobertos de pastos ou com algumas árvores bem lá no topo. E eu visualizava o invisível, pode ser? Pode. As histórias lidas pela mãe, brotavam em minha mente. Quantas princesas e príncipes! Quando meu pai nos presenteava com um passeio na cidade, era o céu! Que alegria! Poder ir ao cinema e ver nas telas os meus sonhos realizados! Na volta, o medo das curvas da estrada, sempre achando que poderíamos despencar, com a ameaça do rio Itabapoana, bem lá embaixo, nos espreitando no escuro da noite. Estradas de chão, e ainda por cima, uma cruz, marcando o assassinato do Ernesto. Ao passar ali, parecia que algum fantasma poderia surgir e fechar os olhos, a única opção. Na saída da cidade, nosso pai costumava comprar uns sanduiches, eu acho, de mortadela, balas e umas caixinhas de passas.Disso me lembro e do enjoo que sentia com a mistura de cheiros. Mas, voltando à janela mágica: os bois que, pastando engordavam para nos proporcionar o leite ( me refiro aí, às vacas, claro!) E me vem à lembrança a queijeira. Ali, podíamos amassar o coalho em pequenas latas redondas para a fabricação dos queijos. Eu visualizo, bem perto da queijeira, um lavador de carros, que consistia em uma rampa de madeira, suspensa por toros também de madeira; se soubesse rezar, implorava para que meu pai não caísse dali. Quantos medos e preocupações infantis mas reais! A pedreira era bem próxima à nossa casa. Cada uma de nós elegia um pedaço de seu. A minha pedra costumava ser mais baixa do que as escolhidas pelas irmãs aventureiras. Sempre foram corajosas, andavam a cavalo como um exímio boiadeiro, enquanto eu me agarrava à sela e torcia para que os passeios acabassem logo. Santa submissão! Por que não me recusava em aderir a tais passeios!? Freud explica. Quando acometida de doenças da infância, ficava no meu cantinho da janela, imaginando a vida lá fora. Por que me dispus a escrever sobre essa fase de vida? Não sei. Talvez, o céu mesclado de nuvens, depois do terço que costumo rezar me tenha levado a isso. Sempre olhar para o infinito nos dá sentimentos inexplicáveis...
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Um comentário:
Mãe muito bonito e interessante o texto. A infância é a melhor parte da vida. Apesar de às vezes acontecerem coisas que não gostamos. Cidade grande é bom. Mas realmente às vezes gostaria de passear mais na roça. Engraçado, quando somos crianças queremos ser adultos. Grande ilusão. Na infância não temos problemas a resolver. Enfim bons tempos ficaram para trás.
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