Fiquei pensando sobre o único tempo verbal que define a vida: o gerúndio. Hoje, tão massacrado e criticado por todos. Os atendentes de telemarketing que o digam. Ficou um tanto ridicularizado o "estamos passando sua ligação" ou qualquer atendimento usando esse tempo de verbo. Mas concluí que é o mais razoável. O passado não volta, já existiu. O futuro pode não acontecer, portanto, também não existe. O que temos de, relativamente, palpável é o gerúndio. Acabei fazendo a analogia entre vida e música. Esta, só é real quando ouvida, tanto por alguém que canta ou quando executada por uma grande orquestra, um único músico, tirando som do seu instrumento, não importando qual seja. Só tem existência real porque a ouvimos. A vantagem é que podemos repeti-la quando quisermos. A vida, não. É um contínuo passar que não espera, não tem bis. Intrigante pensar sobre isso. A arte pode se perpetuar através da pintura numa tela, num mural, no teto das igrejas e em diversos lugares. A música, apesar de poder estar gravada nas pautas, só acontece mesmo quando executada. Assim mesmo cada nota se perde no espaço. Desaparece, fugazmente. Inevitável a constatação de que a vida é irmã gêmea da música. Ambas são percebidas, sentidas, apenas quando ouvidas. Explicando melhor: quanta coisa deixamos de usufruir se não somos tocados, alertados, sensibilizados. E não necessariamente, saída da vibração das cordas vocais, não; deixamos de ouvir, sim, a voz interior, aquela que vem do mais profundo âmago. A voz da razão? Ou, contrariamente, a voz do coração, que pode ser mais eloquente. De qualquer forma, nos perdemos em considerações inúteis, em descompasso com o ritmo do gerúndio. Este, sim, faz sua trajetória, independente do passado ou futuro. Alguns o chamam presente. Mais adequado seria não nominá-lo. Ele tem pressa, não nos daria ouvidos, nem uma nova chance. Não que não queira, apenas não pode, porque está freneticamente, correndo em direção ao infinito.
Um comentário:
Adore o texto. Vou compartilhar bjs
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